terça-feira, 30 de setembro de 2008

Flutuando

- Jacek Wojszczerowicz era velho, pequeno, jamais foi bonito. Tinha o rosto devastado pelas rugas e uma calvície avançada. Era polonês e ator. Depois de um enfarte, os médicos lhe ordenaram que não atuasse mais. Continuou. Veio um segundo enfarte. Os médicos previram uma morte próxima se continuasse aparecendo no palco. Persistiu: duas vezes por semana, vestido com uma pesada armadura, arrastando o passo como se um segredo bem guardado o oprimisse, era Ricardo III. Dois dias antes, começava a preparar-se para a estréia, alimentando-se somente de caldo e bebendo água. Caminhava de cima para baixo na sua casa, sem deter-se jamais, como se para reafirmar a seu próprio corpo: “Conseguiremos!”
No dia do espetáculo, jejuava como um religioso que se prepara para a cerimônia. Porém, só pensava em alicerçar seu estômago para a fadiga do espetáculo. Às três da tarde, saía de sua casa e se dirigia para o teatro com passo obstinado, murmurando as palavras de seu texto. As pessoas que o viam passar acreditavam que estava bêbado ou louco. Depois , vestia-se com sua armadura. Chegava, então, o momento em que seu olhar vagava além de seus companheiros ou dos espectadores, como se para espiar a morte.
_ “Compreende? Não atuo para o público. Atuo para Deus.”
Em Varsóvia, na escola de teatro, onde vivi meu primeiro dia de aprendizagem, pensava que só os doentes de coração deveriam ser atores.

Eugenio Barba